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História do Rali - Parte 6: Paris-Madri 1903.


Publicado por DECO MUNIZ em 21/02/10 às 16:24 na(s) categoria(s) Histórias do Rally

Entre 1895 e 1903 quase todas as corridas de automóveis aconteciam na França, ou eram de inspiração francesa. Durante este período as velocidades dos carros aumentaram drasticamente dos 18 km/h de Emile Levassor com seu Panhard de 1,2 litros, aos estrondosos 144 km/h do Panhard do piloto De Knyff que participou da Gordon Bennett Cup em 1903.

 

 

“Pórtico” de largada – Paris-Madri 1903

 

 

Mapa da época, com o roteiro da prova

 

 

Largada do Mors 217 de Auguste Amblard – 16º colocado

 

No ano de 1903 aconteceu o Rali Paris-Madri, mas os acidentes foram tantos que a prova foi interrompida ainda em sua primeira etapa, em Bordeaux. Durante 25 anos esta corrida serviu como justificativa para a proibição das provas de estrada na França. Esta prova acabou sendo o divisor de águas do automobilismo mundial e a partir daqui o esporte se divide em dois, com as provas de Grand Prix (GP) realizadas em circuitos e que acabaram por culminar na F-1, e a continuidade das provas de estrada, batizadas de Raids na França, com a continuidade do rally mundial.

 

O ACF - Automobile Club de France decidiu realizar esta corrida entre as duas capitais européias em outubro de 1902. As inscrições foram abertas em meados de janeiro de 1903 e rapidamente os principais construtores da época se inscreveram. No total quase 300 competidores foram registrados, mas participaram da corrida 127 carros, 23 carros leves e 47 Voiturettes.

Nota: Voiturette é a palavra francesa usada como o nome registrado em 1896 para o veículo Léon Bollée, um carro de 3 rodas. É também usada para descrever os mini-carros, porém, ela tem vários significados, dependendo em grande parte da data de uso.

 

Os 274 veículos que largaram na corrida foram divididos em três categorias:

       1) Carros de 650-1000 kg, que eram os modelos quase originais de “rua”

       2) Carros leves de 400-650 kg, com os primeiros carros feitos especificamente para competição

       3) Voiturettes de 250-400 kg.

 

 

Vistoria e pesagem do Mors 85 do piloto Augières

 

 

Carro 68 - Baron de Forest (Mors Dauphim)

 

 

Largada do Mors Dauphim 168 de Fernand Gabriel, o Campeão da prova

 

Os carros deviam fazer o seu caminho em estradas de terra onde havia muita poeira, fazendo com que a "navegação" fosse feita seguindo as árvores que margeiam a pista em meio aos espectadores entusiasmados, uma situação muito perigosa.

 

No dia 24 de maio de 1903, domingo às 3h 30 da madrugada, deveria partir o primeiro dos carros inscritos para realizar o percurso Paris-Madrid, organizado em três etapas diárias. A largada foi, contudo, retardada em 15 minutos, por ser noite cerrada e nenhum daqueles primitivos carros disporem de faróis. Presente a competição estava a nata dos pilotos da época, incluindo nomes que perduram até hoje pelas marcas que fundaram como os irmãos Louis e Marcel Renault, Ettore Bugatti, Vincenzo Lancia e Charles Rolls.

 

Ao final da primeira etapa da prova, Louis Renault é o primeiro a chegar a Bordeaux ao meio-dia e quinze minutos, após ultrapassar o britânico Charles Jarrot, o primeiro a partir de Versalhes, tripulando um De Dietrich. Com um Renault (um carro feito para corridas), ele completou o percurso após 5h 29min 39s (média de 99 km/h) atingindo a velocidade máxima de 140 km/h. O terceiro a chegar, bastante tempo depois, foi Fernand Gabriel, a quem foi atribuída a vitória. Gabriel chega a Bourdeaux ao volante de seu Mors "Dauphim", tendo partido em 82º, ele ultrapassou setenta e nove carros, completando os 552 km em 5h 13min 31 seg com média superior a 105 km/h.

 

 

Renault nº 3 de Louis Renault o segundo colocado

 

 

O Dietrich de Lorraine Barrow (não terminou a prova)

 

 

Carro 16 (um modelo Adler) pilto: Valentin 52º lugar na prova

 

Resultados da prova:

          1) 168 Fernand Gabriel – Mors Dauphim - 5h 13m 31s

          2) 3 Louis Renault - Renault 30 cv - 5h 29m39s

          3) 96 Jacques Salleron - Mors - 5h 47m01s

          4) 1 Charles Jarrott - de Dietrich 45 cv - 5h 52m55s

          5) 78 Br Pierre de Crawhez - Panhard-Levassor 80cv - 5h 54m11s

          6) 99 John Warden - Mercedes - 5h 55m30s

          7) 153 Carl Voigt - CGV40cv – 5h57m49s

          8) 293 Gasteaux - Mercedes - 6h 01m

          9) 205 Achille Fournier - Mors - 6h 12m

          10) 47 Paul Baras - Darracq - 6h 13m

          11) 69 Henri Rougier - Turcat Mery - 6h 17m

          12) 112 Mouter - de Dietrich - 6h 18m

          13) 209 Page - Decauville - 6h 18m

          14) 86 Camille Jenatzy - Mercedes - 6h 25m

          15) 153 Max - Mercedes - 6h 38m

          16) 185 Augières - Mors - 6h 43m

          17) 119 Hubert le Blon - Serpollet - 6h 44m

          18) 116 G. Berteaux - Panhard - 6h 47m

          19) 128 Victor Hemery - Darracq - 6h 56m

          20) 292 Edgar Braun - Mercedes - 7h 05m

 

 

Mors Dauphim 168 de Fernand Gabriel, durante a prova

 

Resultado por categoria:

 

HEAVY CARS

          1) Fernand Gabriel [Fra] Mors / 2) Joseph Salleron [Fra] Mors / 3) Charles Jarrott [Ing] De Dietrich

LIGHT CARS

          1) Louis Renault [Fra] Renault / 2) Paul Baras [Fra] Durracq / 3) Page [Fra] Decauville

VOITURETTES

          1) Masson [Fra] Clement / 2) Barillier [Fra] Richard-Brasier / 3) Louis Wagner [Fra] Darracq

 

 

 O Darracq do piloto Baras (10º) sendo ultrapassando pelo Panhard de De Crawhez (5º)

 

 

Marcel Renault, com um modelo de sua fabricação, pouco antes do acidente que lhe custou a vida

 

 

Detalhe do “estado” de uma dupla participante, à chegada da prova

 

À medida que foram chegando mais carros, começou a desenhar-se a tragédia em que a etapa tinha se constituído. Entre pilotos, navegadores/mecânicos e espectadores, haviam morrido mais de uma dezena de pessoas! E entre eles, Marcel Renault, cuja morte provocou uma verdadeira comoção nacional na França. O sucesso popular do evento foi imenso, mas o governo francês, já desfavorável por causa dos constantes acidentes (como o Paris-Berlim 1901), decidiu suspender a corrida em Bordeaux, em vista dos acidentes e suas vítimas, apesar do forte crescimento econômico deste setor que a prova trouxe.

 

Uma corrida trágica:

 

Em 24 de maio de 1903, milhares de parisienses foram “às ruas” para ver o início dos 1.400 km do Rali Paris-Madrid. Com multidões de espectadores de ambos os lados da estrada e os pilotos a velocidades próximas de 150 km/h, a tragédia estava prestes a ocorrer.

 

O primeiro acidente ocorreu numa passagem de nível, no cruzamento da linha férrea Paris-Tours a dois quilômetros de Bonneval. O carro nº 243, pilotado por Porter, pegou fogo e o piloto infelizmente foi carbonizado. Segundo acidente em Ablis: um carro atingiu uma mulher que estava atravessando a estrada e matou-a instantaneamente.

 

A poucos quilômetros de Poitiers, o carro de Marcel Renault – o Renault nº 63 caiu numa vala e o piloto foi projetado a mais de seis metros. Ele foi transportado para Couhé-Vérac em estado gravíssimo, vindo a falecer posteriormente em função dos ferimentos.

Marcel Renault (França, 1871 ou 1872 - 1903) foi um industrial e piloto de corrida de carros francês, co-fundador de empresa automobilística Renault, irmão de Louis e de Fernand Renault. Seus irmãos e ele fundaram a companhia Renault em 25 de fevereiro de 1899. Louis e Marcel competiram com os carros que construíram um ano mais tarde. Morreu com a idade de 31 anos, em 25 de maio de 1903 devido as graves lesões que sofreu um dia antes no Rali París-Madrid. Depois de sua morte uma estatua foi construída em sua memória, mas ela foi destruída pelos ataques alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

 

 

Ilustração da época, retratando um dos acidente da prova

 

 

Mais um dos vários acidentes da prova

 

 

Ilustração da época, mostrando um dos mais corriqueiros acidentes que aconteciam nas corridas

 

A três quilômetros de Angoulême, o piloto Touran em seu Brouhot nº 23 decolou de uma ponte, acarretando óbito na hora do navegador/mecânico Norman, mais três espectadores, dois soldados e uma criança também morreram no local. Outro acidente ocorreu perto de Montguyon na Combe-du-Loup, antes de Arveyres: Stead, piloto do Mercedes n º 18 foi mortalmente ferido na sequência de uma colisão com o carro nº 96. O navegador Terry também ficou ferido. Em Arveyres, o carro nº 5 ocupado por Lorraine-Barrow, atropelou um cachorro, capotou e veio por bater numa árvore. Dos dois ocupantes, o navegador teve óbito na hora, o outro, o Sr. Lorraine-Barrow, ficou em estado grave. O carro ficou em pedaços. No total, nada menos do que 12 pessoas morreram, com 15 feridos.

 

Curiosidades e regulamento:

          - Na França, em 1903 existiam cerca de 13.000 veículos registrados;

          - Estavam presentes o holandês Van Zuylen, o Barão Van Nyeveldt, o conde Albert de Dion (maior “arroz de festa” da época) e o carro do jornalista Paul Meyan;

          - A corrida marcou também a participação brilhante de uma piloto numa prova de carros, a Madame Camile du Gast pilotava o De Dietrich numero 29 acompanhada de seu marido como navegador (esta história vocês acompanham aqui no Blog - capitulo nº  6 desta série;

          - Cada participante levava suas próprias ferramentas em seu carro. Ninguém podia ajudar os participantes, ou seja, não era permitido o apoio externo, tal qual é nos dias de hoje;

          - Todos os automoveis poderiam levar no máximo 150 Kg de equipamentos e 75 Kg de combustível;

          - Estavam programadas um total de 3 etapas: Paris-Bordeaux / Bordeaux-Vittoria / Vittoria-Madrid; A maior parte deste primeiro e único dia de prova aconteceu na estrada em direção a Versailles;

          - Após cada estágio os carros eram colocados em parque fechado;

          - Um dos locais com maior presença de público foi a ponte de Suresnes, com uma estimativa  de que havia mais de 20.000 pessoas no local;

          - A prova levou cerca de 3 milhões de pessoas ao trajeto e a segurança do percurso não foi considerada.

     

     

    Renault 40 HP de Marcel Renault

     

    Briga de “montadoras”:

    O único carro que poderia rivalizar com os Panhards dominantes no início deste século eram os produtos de Emille Mors um engenheiro elétrico por formação. Seus primeiros carros tinham montor traseiro com dois cilindros. Em 1899 ele apresentou um novo modelo com motor frontal e 4 cilindros em linha, que se tornou a base para o seu sucesso em corridas. Desenhado por Henri Brasier o modelo Mors Racing 2-CV com 7,3 litros venceu em 1900 o Bordeaux-Perigueux-Bordeaux e Paris-Toulouse-Paris, ambas corridas nas mãos de Alfred Levegh.

     

    Em 1903 Mors utilizado um corpo aerodinâmico semelhante a um barco "invertido". O Dauphim Mors (semelhante a um golfinho, daí o nome), tinha um chassi de aço estampado e uma entrada “over-escape” do motor com todas as válvulas operando mecanicamente a partir de uma única central. A frente do carro foi abandonada em 1904, quando os carros de corrida da empresa adquiriram a nova colmeia do radiador. Ao todo, a empresa construiu 13 Dauphins, Mors continuou nas corridas até 1908, mas esta seria a sua última vitória importante.

     

     

     

    Modelo Mors 1903

     

     

    Ilustração do Campeão Fernand Gabriel durante acorrida em seu Mors

     

     

    As fotos utilizadas neste post são de Domínio Público (conforme determinado pelas Leis Internacionais de Copyright).

     

     
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