No deserto peruano
Foto: Arquivo Nova Origem
Estrada em direção à Nazca
Foto: Arquivo Nova Origem
Algumas das Linhas de Nazca
Foto: Arquivo Nova Origem
A reserva de Paracas, com o Pacífico
Foto: Arquivo Nova Origem
Índios peruanos
Foto: Arquivo Nova Origem
Depois de termos pedalado pela Bolívia, de ponta a ponta, chegamos ao Peru, famoso por suas ruínas e montanhas. Machu Picchu, Linhas de Nazca e Paracas eram nossas metas iniciais, lugares que sempre sonhamos em conhecer e que agora estávamos chegando de bicicleta.
Cruzamos a fronteira pelo Lago Titicaca, saindo da cidade boliviana de Copacabana em direção a Puno, no Peru. Os primeiros quilômetros em um país diferente são muito interessantes. Sempre muda alguma coisa pelo simples fato de atravessar a fronteira. Moeda, sotaque, música, roupas... muita coisa mudou, apesar de ainda convivermos com o mesmo estilo de vida andina.
O relevo dos Andes não ajuda as máquinas e, por causa disso, a agricultura familiar ainda prevalece. É bonito ver as famílias trabalhando juntas, plantando, colhendo, produzindo corda. Muitas vezes escutamos uns gritos de longe e vemos no meio do campo alguém acenando pra gente. O que mais ouvimos é “feliz viaje!” ou “gringo. One dollar!”. Essa interação com o povo dinheiro nenhum paga.
No Peru, o transporte público é bem diferenciado. Há algumas motos modificadas, que parecem mais uma carruagem, com capacidade para levar três passageiros. O que mais gostamos foi o bici-táxi, uma bicicleta “tunada”, que também pode levar até três pessoas. É barata andar em uma delas. Um sistema interessante, que deviria ser mais difundido!
Paisagem andina
Pedalamos pelo altiplano, uma planície a 3.800 metros de altitude. A paisagem é formada por um capim marrom, llamas, ovelhas e alpacas, casas de adobe e montanhas gigantescas que cercam a área plana e que muitas vezes são cobertas de neve.
Em nossa segunda noite no Peru, conseguimos abrigo em um estábulo onde são criadas llamas e alpacas, em uma comunidade com umas quatro famílias, no máximo. À noite, um casal apareceu com uma panela de arroz com leite e chá. Tivemos com eles uma conversa breve, mas muito rica. O casal nascera na região e vive aquela vida humilde dia a dia. Contaram-nos que durante uns três meses ao ano, a região fica coberta de gelo. Incrível perceber como esse povo aprendeu a conviver com essas adversidades, sobrevivendo a um clima tão extremo. Parece que os incas ainda estão vivos aqui!
Próxima parada
Chegamos ao estado de Cusco cruzando antes o passo La Raya, a 4.350 metros de altitude, e passando pelos pés da montanha nevada Kunurana. Foi a única subida enfrentada por nós neste trecho. E ela não foi tão puxada quanto pensávamos.
A partir daí, começou uma longa descida pelo Vale Cusquenhos, com montanhas gigantes e às margens de um rio, que formava paisagens alucinantes, com muito verde.
Chegamos a Cusco em meio a um trânsito caótico. Para chegar ao centro da cidade, foram mais de 20 quilômetros por dentro da cidade. Na Praça de Armas, demos de cara com imponentes igrejas católicas, que nos mostravam que não estávamos mais em terras incas.
A cidade foi invadida pelo turismo. Tem gente do mundo inteiro, e escutamos várias línguas sendo faladas na Praça de Armas. O problema do excesso de turismo é que tudo fica artificial, como mulheres fantasiadas para tirar fotos com os turistas em troca de “una propinita”. É nessa hora que valorizamos viajar de bike, porque temos a oportunidade de conhecer o caminho, o interior do país e a real cultura dele.
A região de Cusco é famosa pela concentração de ruínas incas. Conhecemos muitas delas, inclusive a imponente cidade perdida de Machu Picchu. É impressionante a conexão desse povo com a natureza. Eles escolhiam lugares lindos para morar, utilizavam matéria-prima local, transformavam montanhas em locais planos para plantar, e tinham uma arquitetura precisa e bonita de ver agora. Difícil imaginar como seria a América do Sul hoje se os índios ainda estivessem soltos por aí.
Conversamos com alguns nativos que conhecem sua história e tentam preservá-la. Em Ollantaytambo, um deles, que trabalha como guia, nos disse que a maioria das ruínas da região foi reformada e reconstruída, e o que vemos hoje não são construções incas puras.
Visita ilustre
Em Cusco, recebemos a visita mais do que especial da mãe do Kico. Ela ficou 10 dias conosco em um hostel, interagindo com outros cicloturistas e mochileiros do mundo todo. Foi uma experiência “massa” pra gente, principalmente para o Kico, que pôde curtir a região com a mãe. E para celebrar, ela nos fez uma deliciosa feijoada, para matarmos a saudade de uma comidinha da mamãe. E ela levou de volta alguns presentes que compramos para os nossos familiares que estão no Brasil.
Também demos um rolê de bike com o brasileiro e também cicloturista Antonio Olinto, mais a sua esposa Rafaela Asprino, pelo Vale Sagrado dos Incas. Olinto foi o primeiro brasileiro a fazer uma volta ao mundo de bike. O casal faz um belíssimo trabalho de divulgação. Veja o site www.olinto.com.br. Passamos dias especiais com eles, inspiradores de nossa viagem e exemplos de vida.
As famosas linhas
Nos despedimos dos amigos e de Cusco e pegamos um ônibus até uma vila 60 quilômetros antes de Nazca. Viajar de ônibus é ruim demais! É agoniante ver tudo passar rápido, não poder parar, conversar, tirar uma foto.
Depois de 11 horas de viagem, colocamos a bagagem nas bikes e descemos mais de 1 hora por uma estrada em ziguezague, que não terminava nunca. Mas, cada curva guardava uma paisagem mais legal que a outra. Chegamos à cidade de Nazca, que fica no meio de um deserto que cobre praticamente toda a costa peruana. Foi o nosso primeiro contato com um deserto.
Não fizemos o sobrevoo para ver as Linhas de Nazca, que são desenhos diversos (de animais, plantas e figuras geométricas) feitos há muitos anos, não se sabe exatamente quando, por povos antigos. Aproveitamos os mirantes para ver algumas figuras. Os desenhos são bem diferenciados. O mais impressionante são as linhas retas, que se perdem no horizonte de tão grandes. Mas, tivemos a sensação de que as imagens eram menores do que imaginávamos.
Nesta região, fizemos um dos acampamentos mais diferentes de nossa vida: dormimos no meio do deserto amarelo, com um por do sol avermelhado, montanhas de areia e pedras de todos os tamanhos. A única coisa que nos fazia lembrar a civilização eram os caminhões, que passavam pela rodovia.
Litoral bem diferente do nosso
Foi na Reserva Nacional de Paracas que nos banhamos pela primeira vez no Oceano Pacífico. Ali o mar se encontra com um gigante deserto. Não tem árvores e as aves são muito diferentes das que conhecemos às margens do Atlântico. Pedalamos pela reserva, no meio de falésias e montanhas de areia, de diferentes tons.
Paracas é um lugar mágico, com muita conexão com a natureza. A parte ruim é que navios pesqueiros continuam varrendo o mar e, segundo um trabalhador da maior empresa de pesca dali, cada barco tem capacidade para 50 toneladas de peixe. Grande parte dessa produção vai para o Japão. Os pescadores dizem que os peixes grandes já não aparecem mais. Uma covardia!