Segue uma retrospectiva crítica da escalada brasileira dos últimos 100 anos. Em vários países, o desenvolvimento da escalada se deu devido a muita bravura, fama, ego, decepção, brigas, etc. Aqui, no Brasil, além de tudo isso, começamos de uma forma meio torta, mas evoluimos assim mesmo, como uma árvore torta do cerrado, que acaba se adaptando e dando certo.
Comemorações estranhas. E por falar em árvore, o que alguns cismam em comemorar erroneamente como o início da escalada brasileira e, por seguinte, seu centenário, Os Cinco de Teresópolis escalaram o Dedo de Deus em 1912 de uma forma muito esquisita do ponto de vista técnico, não querendo diminuir de forma alguma essa enorme façanha, mesmo porque eles não eram “escaladores”. Quando não havia chaminé e surgia algum lance difícil, um subia no ombro do outro para ganhar altura, ou usavam tronco de árvore que rebocavam montanha acima. A “técnica” mambembe de usar tronco ou bambu nas primeiras ascenções foi usada por muitos escaladores até a década de 1960, ou seja, até meio século depois! Talvez a primeira ascenção da Torre do Livro em 1898, nas Agulhas Negras, tenha sido feita num melhor estilo. Aliás, brasileiros que nunca ouviram falar de alpinismo na época, ou muito antes, já escalavam costões técnicos descalços e sem equipamentos de segurança, mas não sabiam que “escalavam”.
O Rio de Janeiro é o centro mais importante de escalada do país. A escalada brasileira se desenvolveu principalmente nas montanhas, paredes e falésias cariocas e influenciou o resto do país. Entretanto, hoje a escalada se desenvolve de forma independente em vários estados brasileiros, porque formaram culturas próprias, o que é excelente. Mas até os erros feitos pelos cariocas foram copiados pelos escaladores de outros estados, como por exemplo, o termo “abertura de temporada”, que, por sua vez, foi copiado dos países temperados. E parece não ter sido feito por escaladores entusiasmados e sim por escaladores de ocasião e bebedores de cerveja, que estão sempre procurando justificativas para não escalar, ou arrumando desculpas para não acordar cedo para escalar na sombra, em época de verão. Outros usam a desculpa da inconveniência de correr o risco de pegar uma chuvinha na parede, enquanto que nas montanhas alpinas é normal pegar verdadeiras tempestades em qualquer época do ano. Tente explicar essa frescura e esse termo usado no Rio de Janeiro para os escaladores canadenses, ingleses ou japoneses. E nem vou falar de russos ou poloneses, porque ai vai ser frescura mesmo! Ou seja, no Brasil, se escala o ano inteiro. Na verdade, a “abertura de temporada” no Rio de Janeiro teve como embrião encontros anuais à fantasia, em meados da década de 1980, que eram divertidíssimas. Participei de um evento subindo o Costão do Pão de Açúcar fantasiado de árabe, com turbante e tudo, às 11h da manhã e sob um sol infernal. Nos anos de 1990 esta atividade foi substituída pela “abertura de temporada”, mas sem fantasias. Entretanto, o título correto deveria ser Encontro Anual de Montanhistas ou Encontro Anual de Escaladores. O que começou como uma brincadeira, hoje faz parte do calendário oficial da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Tirando o nome equivocado, o resto é motivo de orgulho dos escaladores cariocas, o que foi um ganho importantíssimo.
As associações. Em vários países, o montanhismo evoluiu graças aos clubes, associações e federações, a exemplo do Alpine Club fundado na Inglaterra em 1857, e do Club Alpin Français, criado em 1874, que fizeram desses países potências escaladoras e exploradoras nos séculos 19 e 20. No nosso caso, bem... Somente o Estado do Rio de Janeiro chegou a contar com 11 clubes. O primeiro carioca foi fundado em 1919, os outros (não todos) foram surgindo em função de brigas e dissidências, como se naquela época houvesse muitos milhares de associados. E existiam rivalidades entre essas pequeníssimas agremiações, que foi terminar apenas algum tempo atrás, quando a escalada passou a ser feita predominantemente fora delas. Obviamente, o Brasil não chegou a ser nenhuma potência escaladora por causa disso, mas se não fossem os clubes do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, o montanhismo nacional não seria o que é. Hoje há vários clubes novos, associações e federações em outros estados, e uma confederação nacional, que estão levando o montanhismo brasileiro a um nível de organização nunca visto antes. Entretanto, geralmente quem escala muito não liga para organização e nem ajuda, alguns até se autodenominam “anarquistas”, mas reclamam quando são prejudicados. E você sabe por que reclamam? Protestam pela a falta de organização!
Na tentativa de organizar o montanhismo e a escalada nacional, foram criadas as federações estaduais Femerj, Femesp e a Fepam, para depois formar a Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada, a CBME, todas baseadas nos clubes e nas associações. No ano 2000 foi criada a Federação de Esportes de Montanha do Rio de Janeiro (Femerj), mas o processo foi iniciado sem muita pretenção a partir de 1993, quase por acaso, e deslanchou graças a uma lista de discussão na internet em 1999, conhecida na época como Interclubes. Mas, hoje, esta federação tem outro nome, mais apropriado: Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro. Porém, o início é sempre tortuoso. Ora, uma federação de esportes de montanha deveria incluir também: mountain bike, esqui e voo livre, além de outras atividades. Devido a diversos problemas e reclamações surgidos em função do nome original, mudou-se acertadamente para evitar mais encrencas e acabou servindo de modelo para as organizações que surgiram depois, em outros estados. Ou seja, resolveu-se tratar apenas do que entendemos bem: montanhismo e escalada. Entretanto, durante os anos 1970 existiu a Fmerj, precursora da Femerj, mas que não deu certo devido a problemas políticos. E assim começamos – sempre do jeito mais difícil. Depois, vamos dando nossos jeitinhos e remendando o que sai errado. O brasileiro realmente é criativo, imagine se fosse também organizado?
A hierarquia das associações também é algo interessante. Enquanto os clubes possuem sedes próprias, bens e até funcionários, a confederação e as federações são organizações quase virtuais. Recentemente, o American Alpine Club me procurou porque queria fazer um convite oficial à Femerj, mas, para isso, essa entidade teria de ter endereço fixo. Mas não tem!