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Um necessário esclarecimento sobre a nossa escalada ao Monte Everest em 2011


Por Helena Coelho | 31/08/2011 - Atualizada às 11:59

Olá a todos que me acompanham aqui neste portal de notícias há mais de 10 anos, e olá também para aqueles que me conhecem há pouco tempo. Para estes, faço uma breve introdução: eu e Paulo Coelho, também montanhista, temos tentado há alguns anos a escalada ao cume do Monte Everest sem o uso de oxigênio suplementar.

Esse artigo tem como objetivo esclarecer de uma vez por todas uma infeliz informação que foi veiculada na temporada de escalada do Everest em maio deste ano, 2011. Enquanto eu estava no Everest acompanhando um cliente, tomei conhecimento que haviam publicado, inclusive no Webventure, a inverídica informação de que nós fazíamos parte de uma expedição comercial e que pretendíamos escalar usando oxigênio suplementar.

É do conhecimento de muitos que não estávamos em expedição comercial e que, para mim, chegar ao cume do Everest somente teria valor se fosse sem o uso de oxigênio suplementar.

Antes de continuar a escrever, é bom frisar, para que fique bem claro, que ao defender esses princípios, que não estou criticando as pessoas que optam pelo uso do oxigênio em alta montanha.

Procurando não dar importância ao infeliz comentário, que provavelmente não foi checado antes de ser veiculado (caso contrário, não teria sido publicado), não respondi prontamente. Porém, essa situação desagradável, que eu tentava ignorar, ainda hoje me incomoda, pois sou abordada e questionada sobre o teor daquela notícia, como se houvéssemos nos esquecido dos valores que norteiam nossa vida pessoal e profissional.

Isso chegou ao seu ápice na semana passada, com o válido questionamento de um grande profissional de outra área, que me mostrou ser relevante esclarecer o assunto, importante para fortalecer o campo daqueles que têm valores éticos, que agem dentro dos limites do respeito à integridade física e moral das pessoas, que respeitam os limites na relação com a natureza e com a cultura de todos envolvidos.

Aos verdadeiros fatos
Respeitando essas ponderações, agora explico: fui ao Everest este ano em uma expedição montada inteiramente por nós para dar suporte a um cliente (e amigo), que gostaria de seguir escalando o maior cume de cada um dos continentes. Por facilidade do operador local, nossa cozinha, que era para ser independente, foi juntada com a de outras pessoas além, claro, de termos dividido a permissão de escalada por uma questão de custo mais baixo.

Meu amigo iria usar oxigênio suplementar e sherpas de altitude em sua subida. Eu daria todo o suporte desde a organização da expedição até a aclimatação, além de acompanhá-lo ao último acampamento. Dali, ele seguiria com sherpas. Meu compromisso com ele, envolvendo uso de oxigênio, seria única e estritamente em caso extremo de emergência e somente para baixá-lo. Ou seja, assim como já fiz tantas e tantas vezes, o objetivo era subir sem oxigênio. E, mais uma vez, assim como tantas e tantas vezes, ainda não pude alcançar o cume dessa montanha.

Infelizmente, esse amigo apresentou um sério problema de saúde que o impossibilitou de continuar e nós descemos do campo avançado, a 6.400 metros de altitude, apesar de ele dizer que desceria com sherpas e que eu poderia continuar subindo. Quem nos conhece sabe que não é esse o nosso jeito de agir. Descemos passo a passo, toda a cascata de gelo juntamente com ele até chegar ao campo-base. Como nosso amigo não poderia continuar caminhando, fomos privilegiados pegando carona num maravilhoso voo de helicóptero desde o campo-base até a cidade de Kathmandu.

Felizmente, a embaraçosa situação criada pela veiculação dessa informação inverídica, mostrou que há um bom número de pessoas que se importam e muito com a forma – e não apenas com os resultados – que mesmo a mais simples das atividades é realizada. Aos amigos e não amigos: mesmo sem ter chegado, AINDA, ao cume dessa maravilhosa montanha, continuo seguindo o que acreditamos: que a montanha não precisa ser diminuída para ser desfrutada. E que não precisamos colocar na lista um cume conquistado sem respeito ao que acreditamos. Obrigada.


Helena Coelho


Helena Coelho, colunista do Webventure, é guia de trekking e escalada há mais de 30 anos em montanhas do Brasil e do mundo. Escalou os mais altos cumes dos Andes, o Mont Blanc e o Elbrus (Europa), o Kilimanjaro (África) e o McKinley (América do Norte). Foi a primeira mulher brasileira a trabalhar na Antártica como alpinista de apoio ao Programa Antártico Brasileiro. Participou de várias escaladas na Cordilheira do Himalaia, chegando a 8.400 metros de altitude do Everest (que tem 8.848) sem o uso de cilindros de oxigênio e sem o auxílio de sherpas. Helena e seu marido Paulo Coelho têm o apoio de Curtlo e Sportslab.

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